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Histórias
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Morando na cidade de Bodoquena, aos 73 anos de idade, Deolindo é apaixonado pela vida no campo

Por Arsênio Martins e Chrystian Martins Fonte: Aqui é Destaque
Histórias

Hoje vamos contar a história do peão de boiadeiro Deolindo Martins dos Santos, um dos desbravadores e pilares da cultura rural de Bodoquena.

Conhecido na região como Seu Deolindo, ele nasceu em Guaraçaí (SP), em 30 de agosto de 1952, mas chegou ao então Mato Grosso (Campão) ainda bebê, em 1953.

Hoje aposentado e morador de Bodoquena, ele compartilha as ricas e duras memórias de sua vida como peão boiadeiro, uma profissão que exige mais do que coragem, força e garra: exige também ter alma caipira.

Seu Deolindo conta que começou a “lutar com animal” muito cedo, aos 13 anos, domando e montando.

Contudo, a carreira formal como peão de boiadeiro, viajando com o gado, iniciou-se aos 18 anos. Ele aprendeu o ofício com diversos condutores, entre eles Creones Martins, que, segundo relatos, ainda vive em Campo Grande (MS), beirando os 100 anos de idade, e ainda é capaz de trançar laços com maestria.

Aos 15 anos, Seu Deolindo já trançava laços e confeccionava sua própria traia. Ele conta que sempre gostou de andar montado em um cavalo bem arreado ou em um burro bem equipado.

Ele lembra que, na época, quem andava assim era o equivalente a possuir um automóvel hoje. Exigente com seus equipamentos, chegou a ter uma traia com 70 argolas de metal branco, material que preferia por não enferrujar e por brilhar à distância.

Deolindo conta que, ainda pequeno, viajava no lombo dos animais de seu tio, conhecido como Antoninho das Éguas, apelido que ganhou por fazer o transporte de mercadorias de Campão a Miranda e vice-versa.

Campão, por muitos anos, não tinha comércio. Ele lembra que não era fácil, mas, segundo ele, era divertido. Mesmo com o passar dos anos, recorda os nomes dos lugares onde dormiam e descansavam, como Taperão, Demorfiro e Jacutinga.

Já na vida adulta, assumiu de vez a lida de peão de boiadeiro. Chegou a fazer viagens transportando boiadas, mas foi como capataz de fazenda que escreveu sua história de vida.

Em todas as fazendas em que trabalhou, Seu Deolindo exerceu a função de capataz. No entanto, fazia questão de trabalhar junto com os peões e não apenas dar ordens no galpão, atitude que, segundo ele, era muito valorizada pela equipe.

Houve também época em que trabalhou sozinho em fazendas. Ele conta que, em Camapuã, chegou a cuidar sozinho de 400 vacas parideiras e 800 bois de engorda.

Foi lá que, aos 49 anos, sofreu o acidente mais grave de sua vida, um episódio quase fatal que deixou marcas para sempre.

Montado em uma mula “muito desinquieta”, ele reunia o gado (para o rodeio) quando o animal tropeçou em um buraco de tatu. Arremessado para frente, Deolindo ficou com o laço enroscado nos pés e foi arrastado por cerca de mil metros.

Ele perdeu mais de 70% da pele do corpo, mas, milagrosamente, não fraturou ossos nem sofreu traumatismo.

A recuperação foi rápida, embora dolorosa: em apenas 20 dias, voltou à lida.

Seu Deolindo mantém viva sua essência caipira em seu quintal, em Bodoquena. Cultiva algumas plantas, como urucum (colorau), e cria seis galinhas botadeiras.

Também tem um fogão a lenha, onde faz rapadura e prepara um bom mate, tradição que mantém desde os tempos em que acordava às 3 da manhã para ordenhar as vacas.

O legado de Seu Deolindo reflete o orgulho do peão de sua geração, aquele que trabalha o gado até torná-lo manso, que respeita o animal e entende o campo como extensão da alma.

Suas histórias ecoam a trajetória de tantos outros trabalhadores que moldaram o Estado e o país.

Você conhece o Seu Deolindo ou alguém que tenha uma história dedicada ao campo e ao agro?
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