Cirila desembarcou da Maria Fumaça em Sidrolândia, só com a fé, e hoje vive às vitórias
Hoje, conheça a trajetória de Dona Cirila, uma mulher de fibra, símbolo de trabalho, fé e superação. Com três décadas de dedicação à comunidade escolar de Sidrolândia, ela se tornou uma verdadeira lenda da Escola Sidrônio Antunes de Andrade.
Cirila Leguisamon, nasceu em 09 de julho de 1944, em Antônio João MT e apenas com 1 ano de idade mudou-se para Ponta Porã.
Dona Cirila costuma dizer que não teve infância. Filha de uma lavadeira e de um trabalhador da erva-mate, ela é uma entre 13 irmãos. Desde pequena, ajudava a mãe lavando e passando roupas para os soldados do Exército, utilizando ferro de brasa. A pobreza era tanta que estudar além da quarta série era um luxo inalcançável.
Em 1966, em busca de uma vida melhor, embarcou em um trem Maria Fumaça rumo a Sidrolândia (que ainda pertencia ao antigo estado de Mato Grosso). A viagem durou das 7h da manhã às 4h da tarde. Com pouco dinheiro, levou apenas uma “matula”: Galeto, bolacha seca, e o tradicional chá de mate queimado (cocido).
Chegou à cidade como mãe solteira, acompanhada apenas da filha e de muita coragem. Passou a morar numa casa de tábuas com a irmã.
Os primeiros anos foram duros. Dona Cirila trabalhou como auxiliar de cozinha na Cotrijui e, depois, como empregada doméstica.
Casou-se com José Dimas dos Santos, ferroviário, mas o casamento foi marcado por dificuldades devido ao vício do marido na bebida.
Em 1981, sua vida começou a mudar.
Incentivada por amigos, candidatou-se a uma vaga na Escola Sidrônio, conhecida à época por sua estrutura precária. Apesar de ter apenas o terceiro ano primário, foi contratada em 6 de março de 1981, graças ao apoio do diretor Zé Roberto e da secretária Luzia Bertácio.
Para garantir o emprego, aceitou trabalhar seis meses sem salário, já que o pagamento vinha de Cuiabá.
Durante 30 anos de serviço, Dona Cirila fez de tudo um pouco, e tudo com excelência: Office Girl, levando o malote de correspondência até o correio; Merendeira, preparando refeições fartas, como, pucherada, arroz, feijão, macarrão e canjica; Inspetora de alunos, vigiando o portão e garantindo a disciplina dos estudantes.
Por seu jeito firme e disciplinador, conquistou respeito e o apelido carinhoso de “Tenente”, que carrega com orgulho até hoje.
Mesmo enfrentando dificuldades no casamento, não desistiu. Usou as economias e o fundo de garantia, fruto de 11 meses de trabalho com carteira assinada, para construir sua sonhada casa de alvenaria, com ajuda do sogro e do cunhado.
Foi com esse dinheiro também que comprou seus primeiros bens: uma geladeira (que custou 11 mil cruzeiros na época) e uma televisão, símbolos de conquista e dignidade.
Dona Cirila é mãe de 6 filhos, 4 homens e 2 mulheres, todos vivos e bem encaminhados.
Na época em que teve seus filhos, Sidrolândia ainda não contava com hospitais, e os partos eram feitos em casa pela parteira Dona Maria Enfermeira. A cidade só começou a ter estrutura de saúde nos anos 80.
Criada na fé católica, Dona Cirila hoje é evangélica da Igreja Mundial. Ela testemunha o milagre da cura do filho caçula, que sofria de epilepsia, após uma campanha de 40 dias de oração.
Atualmente, vive na Vila São Bento, rodeada por filhos e netos, sentindo-se realizada e grata a Deus por tudo o que construiu.
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