Nova Itamarati mostra estrutura e quer ser o 80º município de MS
Os primeiros assentados que chegaram ao atual distrito de Nova Itamarati, em Ponta Porã –a 323 km de Campo Grande– talvez não pensassem que, em menos de duas décadas, a comunidade passaria por duas transformações radicais: primeiro, a mudança econômica que deixou de lado aquele que seria o maior modelo de reforma agrária do país e o tornou área cobiçada pelo agronegócio –com lavouras de soja e milho ocupando lugares antes reservados à horticultura–; e, diretamente ligado ao anterior, a geração de riqueza superior a de muitas prefeituras de Mato Grosso do Sul, atraindo mais moradores que, hoje, sonham em viver no 80º município do Estado.
A trajetória pode ser resumida a alguns momentos. O primeiro deles foi a desapropriação da Fazenda Itamaraty, então pertencente ao milionário e intitulado “Rei da Soja” Olacyr de Moraes (já falecido), por volta de 2002, para que o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) criasse o maior assentamento do país ao custo de R$ 150 milhões pelos 24,5 mil hectares da propriedade.
Instalado, ele ofereceu a seus moradores estruturas inimagináveis para várias comunidades: armazéns, gigantescos pivôs de irrigação (86 operantes, abrangendo área de 120 hectares) e até uma pista de pouso e decolagem.
Enquanto o aeródromo virou pista de caminhada (depois de servir de base para a Força Nacional de Segurança por anos), a estrutura de produção segue bem utilizada. A ponto de voltar a ser usada para a vocação original: uma grande produção agrícola baseada em grãos, que ganharam espaços da pequena agricultura –ainda exercitada por muitos pequenos produtores e que deveria ser o foco principal do projeto de assentamento. Com o tempo, terras passaram a ser arrendadas. Riqueza que, por “linhas tortas”, beneficiou muitos.
Em 2015, o assentamento virou distrito de Ponta Porã e, agora, aguarda o Congresso Nacional para atingir a sonhada emancipação.
Erros e acertos – “O assentamento não atingiu o seu objetivo, mas foi o melhor para a população”, considera Junior Amaral Sobrinho, morador da comunidade desde 2004 e atualmente presidente da Comissão Pró-Emancipação de Nova Itamarati.
“O que o Incra queria fazer foi ruim para o coletivo, porque a função do assentamento era produzir comida, viver de sítio. A agricultura familiar não inclui a soja, mas ela virou a única alternativa para geração de renda”.Sobrinho explica que o assentamento gerava uma produção considerável, mas que não tinha para onde ser escoada.
“Se plantassem melancia, melão, com os pivôs, seria referência. Mas aí onde você iria vender?”, questionou, apontando a carência de mercados com demanda –já que na Grande Dourados, destino natural, a produção disputaria com vários outros assentamentos. “Com a soja é garantido, tem onde vender”.